Estando no Inferno, é impossível sonhar. O que acontece é que, ao acordar, as sensações físicas e psicológicas se entrelaçam sem possibilidade de você jamais poder voltar a separá-las. Conforme Augustine acordava, o calor a dominou avassalador, como se o fogo tivesse substituído o ar. Como é que ela conseguia respirar?A sensação da quente e palpável substância que agora habitava os espaços vazios do mundo onde estava, era tão castigadora, malévola e insuportável que seria melhor perder a capacidade de respirar de uma vez por todas.
Os olhos demoraram-se a abrir, mas também sofriam com a luz alaranjada aterradora que caía sobre suas finas pálpebras. Ao mesmo tempo em que abriu os olhos, os sons de pedidos por misericórdia abafaram sua audição. Gritos de uma dor lancinante, de um desespero imortal.
"O que estou fazendo aqui?"
Lembrou-se de sua casa, tão confortável. Orgulhava-se da posição das janelas, que lhe permitiam sempre uma brisa agradável, deixando a casa fresquinha durante o verão e a primavera. Lembrou-se de acordar cedo aos domingos, e observar a calma com que as cortinas brancas balançavam ao sabor do menor sopro de vento. Lembrou-se de como era bom avistar, desde o fim da rua, seu telhado marronzinho, as paredes verdes e a expectativa de um bom banho, quando vinha chegando cansada do trabalho, caminhando pela rua pacata.
E lembrou-se do demônio. O bafo quente em sua nuca. Os olhos que dançavam na escuridão.
"Eu morri?"