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domingo, 28 de abril de 2013

[Conto] Augustine acorda no inferno

Estando no Inferno, é impossível sonhar. O que acontece é que, ao acordar, as sensações físicas e psicológicas se entrelaçam sem possibilidade de você jamais poder voltar a separá-las. Conforme Augustine acordava, o calor a dominou avassalador, como se o fogo tivesse substituído o ar. Como é que ela conseguia respirar?
A sensação da quente e palpável substância que agora habitava os espaços vazios do mundo onde estava, era tão castigadora, malévola e insuportável que seria melhor perder a capacidade de respirar de uma vez por todas.

Os olhos demoraram-se a abrir, mas também sofriam com a luz alaranjada aterradora que caía sobre suas finas pálpebras. Ao mesmo tempo em que abriu os olhos, os sons de pedidos por misericórdia abafaram sua audição. Gritos de uma dor lancinante, de um desespero imortal.

"O que estou fazendo aqui?"

Lembrou-se de sua casa, tão confortável. Orgulhava-se da posição das janelas, que lhe permitiam sempre uma brisa agradável, deixando a casa fresquinha durante o verão e a primavera. Lembrou-se de acordar cedo aos domingos, e observar a calma com que as cortinas brancas balançavam ao sabor do menor sopro de vento. Lembrou-se de como era bom avistar, desde o fim da rua, seu telhado marronzinho, as paredes verdes e a expectativa de um bom banho, quando vinha chegando cansada do trabalho, caminhando pela rua pacata.

E lembrou-se do demônio. O bafo quente em sua nuca. Os olhos que dançavam na escuridão.

"Eu morri?"

domingo, 14 de abril de 2013

[Conto] Augustine é levada para o Inferno

Limpou os óculos na flanela da blusa, uma última vez, esperançosa de que o que via era apenas uma mancha de gordura nas lentes gastas. Mas não era. Quando retomou a nitidez, ainda viu um demônio agachado atrás das latas e sacos de lixo, do outro lado da rua. Devia ter dois metros e meio de altura, mas estava encurvado sobre si mesmo, com as mãos enormes arrastando-se no chão. O rosto era indefinido àquela distância, mas talvez fosse uma regra do submundo: apenas mostre o quanto seus olhos são vermelhos aos humanos.

A questão agora, para a pobre Augustine, era saber se estava protegida por suas paredes, portas e janelas, ou se era questão de tempo até ele saltar por sobre ela, com aquelas garras e a bocarra cheia de saliva grossa e esverdeada. Parecia respirar com dificuldade, mas não aparentava ser por cansaço e sim por tensão. Talvez estivesse faminto de carne. A carne de Augustine.

Se ele também a via, ela não tinha certeza. O brilho escarlate de seus olhos impossibilitava adivinhar-lhes o foco. Mas era quase certeza de que ele a via, por que outra razão estaria parado em frente a sua casa? À distância de alguns meros passos em suas patas gigantescas.

Então, era isso. Augustine agora saberia que no mundo haviam demônios, mas não teria tempo de contar a ninguém, porque ele a mataria. Ou talvez a levasse para as profundezas, onde tiraria toda a sua pele e faria sua alma sofrer por toda a eternidade, clamando pelo alívio da dor que jamais finda.

Lembrou-se do bloquinho de recados sobre a mesinha do telefone. Talvez pudesse escrever qualquer coisa antes do ataque 'Demônios existem.'